quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Crónicas de Bussulo Dolivro: O Monólogo da Qeda



 

Deitado no Sofá de plástico da minha vizinha, bem no vértice do seu quintal, enquanto esperava o discurso do PR de Angola fui importunado com os gritos de uma criança, que lacrimejava em purgatório, por ter sido abandonada pela mãe.

A mesma, que me parecia ter nove anos, não sabia explicar as razões pelas quais carregava o manto de água salgada em suas pálpebras. Nua, suja e com um volume espantoso de caspa nas raízes do cabelo, gritava como se mergulhasse num inferno de incógnitas. Apenas recordo-me do seu apelido, Ngonguenha.

A mãe de Ngonguenha, peixeira de 45 anos de idade foi atropelada na vila de Cacuaco, soube minutos depois, por intermédio de um Roboteiro, que a viu ser enrolada por um Camião Chinês, quando tentava as pressas abandonar a dor de ter madrugada à praia para justificar o número de filhos que tem, nove no total. – Agora, entendo (…) o porquê das lágrimas amargas daquele menino.

Aos olhos despreocupados dos vizinhos, que assistiam o “Monólogo da Queda” sugeri a condução do mesmo à sua casa. A dor sentida por Ngonguenha, retirava-lho a lucidez de encontrar a casa de bata-chapa entre as milhares no bairro Mayombe em Cacuaco, – Única herança material deixada pela sua mãe, pois o pai é moribundo, convalescente da Lepra em quarentena no fundo escuro da casa de chapas.

Ao retomar o meu aposento cedido pela vizinha, eis, que vi quebrado ao meio, como se uma árvore de Baobah descarrega-se sobre ela toda sua vida milenar, não perguntei, pois Sofás plásticos são tão descartáveis como a confiança, entre os vizinhos em tempo de crise. A dona estava bem ao lado, sintonizando o rádio, (que somente tocam com as pilhas inventadas pelo francês Georges Leclanché, 1839-1882), pois o PR já discursava a sete minutos.     

“Um dos caminhos escolhidos para sairmos dessa crise é a diversificação da economia, que por sinal não é uma ideia nova. Muitos questionam por que razão não começámos este processo muito antes, mas na verdade ele começou há muito tempo, só que não havia condições objectivas no nosso país para avançarmos mais depressa”.

 – Vizinho, quem é este que está a falar na rádio? Perguntou um ancião, que aguardava por um copo de Caporroto da minha vizinha.

O silêncio foi tumular, que o mais velho novecentista renunciou a oferta para seguir errante o seu destino, – Tacó lieni (...) reagiu ao sair, bem num momento, em que alguns jovens procuravam por residências, onde poderiam ouvir o fim do discurso. A razão é justa, a luz eléctrica, havia gozado.

“A implementação dos Projectos Estruturantes de Investimento Público aprovados durante o mandato está em curso e a bom ritmo, como comprovam a conclusão da segunda fase da Barragem de Cambambe, cujo alteamento vai garantir uma potência adicional de 780 megawatts aos actuais 180; a construção da nova Barragem de Laúca, a terminar no  próximo ano, com uma potência de 2 mil e 67 megawatts; bem como a construção da Central do Ciclo Combinado do Soyo, utilizando gás natural para gerar uma potência de 750 megawatts, também a partir do próximo ano”.

– Vizinho, estes números é de quê?, perguntou a dona do receptor. Fechei-me na ignorância dos aplausos, mirando o olhar num arbusto seco, que parecia ao longe a silhueta de um, cão perdido na escuridão.

“Angola registou também um crescimento apreciável do Índice de Desenvolvimento Humano do seu povo, graças em grande parte às melhorias verificadas nos domínios sanitário e educacional. O IDH do povo angolano está, por exemplo, acima da média dos países da África Subsariana”.

– O IDH do povo angolano, é registo eleitoral mais?, voltou a perguntar a vizinha, confesso que desta vez, disse, – Não.

– E aqueles números eram de quê?, insistiu ela.

A fome irritava-me, e o barulho das peixeiras, começava a aumentar, desta vez já não zungavam o peixe, mas a solidariedade pela colega, que foi brutalmente assassinada.  

Agora, a silhueta que me parecia a de um cão perdido, era na verdade, a de uma criança, que recolhia latas velhas para vender a uma empresa de reciclagem de alumínio Cotivoirense, a troco de três copos de Yogurte espirado.

A eloquência discursiva do PR era vezes sem conta interrompida pelo barulho das palmas, como se não tivesse um fiscal atípico para persuadir a audiência, o barulho aumentava para mim, para os demais pareciam aplausos, – Entende-se, pois, poucas são as oportunidades em que o Chefe da nação dentro de suas competências que lhe conferem pela lei decide orientar o rumo do país, tirando as saudações do final de ano.

– Vizinha, podemos ouvir o PR a discursar? Sugeri a ela, que não desviasse meus nervos à sua frágil ignorância, pelo que não seria responsável das consequências.

– Está bem, vizinho, mas depois me explica só queles números yá, porque eu não sei se é de arroz ou do preço da fuba.

As moscas sobre as chapas de sua residência, já faziam morada, – era o volume das escamas do peixe Lambula sobre a Tarimba apodrecida.

O PR prosseguia “Uma área decisiva para o bem-estar das populações é o da habitação. Para o efeito o Executivo elaborou o Programa Nacional de Urbanismo e Habitação. Ao longo do período compreendido entre 2013 e 2015, beneficiando de uma conjuntura orçamental mais favorável, o Executivo priorizou, dados os graves problemas habitacionais, o investimento em novas centralidades”.

Os vizinhos kunangas ouvindo a morte trágica da mãe de Ngonguenha abandonaram suas bate-chapas para acreditarem na fragilidade da crise da morte e na morte da crise, lá estavam em volta sobre os blocos apanhados no gigantesco terreno do general Panda, um cidadão que estimulou o empreendedorismo, através da caça de Gafanhotos em todo bairro do Mayombe. O GP como era acarinhado, empreendeu a sua vida sexual com as filhas dos sobas, razão pela qual lhe foi imposto um Mbumbi, que o levou ao Necrópole. – Os vizinhos dizem, ser o pai verdadeiro de Ngonguenha.

A conversa era muda, o olhar falava mais do que a boca, pois esta apenas abria para acompanhar as emoções lúgubres dos olhos. – Ai we mana, porquê? Exclamavam suas colegas num monólogo profundo.

Dois dias depois, o corpo da malograda ainda não tinha sido removida do asfalto, porque o CRC – carro da recolha de cadáveres da polícia não tinha gasolina, e a família da peixeira não tinha como se comunicar, por falta de Unidade de Taxa de Telecomunicações (UTT), que havia subido de preço, de 900 kz para 1.250 kz sob a orientação da Comissão para a Economia Real do Conselho de Ministros de Angola. Os vizinhos cruzaram os braços. – Neste dia decidi chegar lá, inclinei-me aos vizinhos, única família presente, depois de ouvir o discurso do Presidente até ao fim.

Naquela casa não havia água, apenas um prato de alumino dos anos 70, um peixe seco abandonado sobre a pedra, e um pano preto bem na entrada da porta.

Decidi acorrer ao marido moribundo, afim de conseguir uma explicação, – Se a sua mulher deixou um Bilhete, aperta a minha mão (…)!

– Se conheces um familiar próximo aperta a minha mão (…)! O mais velho, já estava morto, e eu não sabia!

Naquela casa não havia vestígios de moradia, parecia uma bate-chapa, que guardava apenas três corpos, o marido, a peixeira e o Ngonguenha. Os oitos filhos, três deles estão na Comarca Central de Luanda, a doze anos aguardando julgamento, dois foram mortos em 2015 por figurarem na lista negra da criminalidade luandense e os outros dois são dados como desaparecidos desde 1995.

Ao sair daquela nuvem negra, deparei-me com a vizinha, curiosa, questionou se o PR havia dito mais alguma coisa além dos n´´umeros, que me exigia explicações. – Sim, disse!

– Ham!.. sobre aqueles números? – Mas que números vizinha? Chateado pedi aos demónios, que não perdessem a paciencia, e expos o fim a vontade dela.

O PR recomendou sobre a realização das próximas eleições a pautarem pelas lisura e transparência, para que as mesmas expressem e correspondam, de facto, à real vontade dos eleitores do país. Que cada um com o seu voto faça livremente a escolha dos dirigentes que entendem que devem governar o país.

– E onde é que vamos tratar os Bilhetes, vizinho!

 

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